Olá pessoal, essa semana tive uma experiência muito curiosa e gostaria de compartilhar com vocês.
Apesar da abstração total da realidade que as diversas horas de planejamento do casamento provocam, a vida continua com todas as suas surpresas... Vezes positivas, vezes não tanto e algumas, sei lá quantas, realmente ruins.
Passamos tanto tempo navegando, idealizando, calculando e recalculando que às vezes os nossos pés deixam de tocar o chão e tiramos a atenção do que realmente importa para considerar apenas os números e o andamento do cronograma, como se eles fossem a razão de tudo e não o sentimento que nos uniu. É em uma hora dessas que pode surgir uma curva mais fechada no caminho e abalar a estabilidade do relacionamento.
É muito comum, e até positivo, que surjam discordâncias em meio a tantas possibilidades, principalmente para quem decide caminhar junto de fato, lado a lado, para compartilhar cada escolha, emoção e por fim a vida. Nessas horas, tão confortável quanto inconsequente é anular-se para ter paz. Paz sem voz... Eu não. Nasci comunicador, prefiro falar, melhor é expressar, dizer o que acha e buscar um consenso... Mais isso tem que ser feito com muito com amor, ágape à flor da pele, ainda que seja para pôr à prova a compreensão, confiança e cumplicidade, e mesmo assim, continuar a caminhar junto, apoiado no outro, passo a passo pelo breu da convicção alheia. Não sendo assim, dali a dois passos, pode ser que tudo venha à tona e a erupção pode vitimar a admiração, a confiança, o respeito e até mesmo o Amor.
Um relacionamento que resistiu a tudo sendo vitimado pelo casamento, ou pela organização dele. Aprender a dividir é saber apreciar o diferente, conciliar, abrir mão e principalmente o coração para entender a sua outra metade. Nós somos uma soma de dois, que precisa resultar em um: uma vida, um destino, um futuro.
Um dia desses, depois de termos aprendido juntos, à duras penas, que o mais importante dessa fase é o caminho e não o destino, eu tive um encontro inesperado com Deus. E descobri que ele pode estar fazendo bicos de taxista nas ruas de Brasília...
Era um dia de correria, estava a caminho do fórum para representar a empresa em uma audiência. Litígio jurídico. Sentei no branco de trás e informei para onde queria ir. O taxista, um senhor de aproximadamente 60 anos, branco, grisalho e com sorriso no rosto, pediu poucas explicações sobre o destino, fechou os vidro e ligou o ar condicionado, para aplacar o calor escaldante daquela tarde, assim partimos.
Minha atenção estava muito voltada para a revisão das palavras e pensamentos aos quais havia dado vazão, não na audiência, outra hora, poucas coisas do mundo exterior me chamariam atenção. A velocidade com que ele dirigia e sua voz, aparentemente cansada, conseguiram romper minha introspecção. A velocidade era aproximadamente 40km! Ele parecia hesitante ao volante, isso me irritou e eu perguntei as horas para ele, com uma expressão no rosto que certamente falava muito mais sobre minha pressa do que eu seria capaz de fazer educadamente, e ai daí começou uma conversa meio sem propósito.
Começamos a falar, não sei exatamente sobre o que, e não precisou de muito para o assunto chegar à família dele. Perguntei por filhos, filhas e esposa e ele me falou sorridente, durante toda a viagem, sobre como havia se tornado taxista.
Primeiro filho de outros 06, tornou-se órfão de pai e mãe aos 9 anos de idade. Uma criança vulnerável, pensei eu, mais nem tanto quanto o mais novo deles, com 05 meses, ele complementou como se tivesse me ouvido. Permanecemos conversando sobre as dificuldades de começar a trabalhar aos 11 anos, para sustentar os irmão e mantê-los unidos, sobre casar-se apaixonado e ainda novo, no caso dele aos 17, e também sobre a dor de perder um amor prematuro, por escolher a família que ainda dependia dele. Falou sobre ter filhos, 07, sobre como a vida é efêmera e sobre encontrar a cura em um grande amor, e nesse ponto, falamos por longos minutos.
Romântico convicto, ele ressaltava sempre o efeito positivo de olhar para os detalhes; também para os detalhes. Revelou o poder das rosas, como quem as tivesse criado, a importâncias das palavras, do olhar nos olhos e do “Eu te amo”, quando dito acompanhado por atitudes que também o diga. Eu já me sentia bem mais à vontade com a conversa, com o clima e com a velocidade do carro, quando a prova de que era providencial foi jogada no meu colo.
Há 35 anos consecutivos, ele revelou com satisfação que deixa na cabeceira da cama de sua amada, no dia de seu aniversário, um buquê de rosas, a espera acordar e fala olhando em seus olhos “Eu te amo”. Imagina o nó na garganta quando ouvi isso... Uma vez, quando eles moravam na África, para manter a tradição, este senhor precisou sair de casa às 3hs da manhã para encontrar as flores há 200 quilômetros de onde eles estavam. (imagino que na áfrica não tenha uma floricultura em cada esquina...). Chegou atrasado, ela já estava acordada e irritada com sua ausência, mas quando viu as flores o abraçou e chorou em seu ombro, declarando o amor que sentia nesse cuidado. Uma aula de perseverança, dedicação, romantismos, ou simplesmente Amor.
Ao ouvir isso pedi imediatamente que ele alterasse a rota, partimos direto para uma floricultura, onde com um pequeno gesto, para muito apenas detalhe, coloquei em prática o aprendizado daquela tarde. Enviei outras flores à minha, acompanhadas por um cartão com toda a verdade sobre nós e pude ouvir mais uma vez, pelo telefone, a voz dela, apaixonada me dizendo:
- Você quer me fazer chorar aqui no trabalho?! Meu amor, adorei as flores...
Agora sim, com os pés de novo no chão, minha alma parece voar.
PS: Em relação aos outros seis irmãos do taxista, todos foram criados por ele, formaram-se em boas universidades, tem religião e hoje são todos muito abastados, o taxista, também o é, mas de amor.
Até logo, Gabriel Montalvão (O Noivo)